Campanha da Fraternidade 2026: Igreja coloca o direito à moradia digna no centro do debate social

No período quaresmal de 2026, a Igreja Católica no Brasil retoma uma de suas tradições mais profundas de mobilização social ao lançar a Campanha da Fraternidade (CF). Este ano, o tema escolhido é “Fraternidade e Moradia,” sob o lema bíblico “Eu vim morar entre vós.” A iniciativa busca confrontar o crescente déficit habitacional e a precariedade das habitações que afligem milhões de brasileiros, tratando a moradia não como um produto de mercado, mas como um direito humano fundamental e uma necessidade básica ao lado da alimentação e do acesso à água.
De acordo com Dom Maurício Jardim, bispo da Diocese de Rondonópolis-Guiratinga, a escolha do tema responde a um desafio social urgente e educativo. Em um cenário de individualismo, a Igreja propõe uma mudança de mentalidade através da solidariedade.
“O objetivo de a Igreja trazer o tema da moradia para o centro da campanha é tratar a moradia como uma prioridade e um direito da população. Todos têm direito a uma moradia digna,” enfatiza o bispo.
A urgência do debate é sustentada por estatísticas alarmantes que revelam a desigualdade social no país. Segundo dados citados pelo Bispo, cerca de 6 milhões de famílias necessitam de moradia no Brasil hoje, seja por habitarem locais extremamente precários ou por estarem em situação de rua. Além disso, aproximadamente 26 milhões de pessoas vivem em habitações inadequadas, frequentemente situadas em áreas de risco.
Dom Maurício ressalta que o acesso à casa própria se tornou um obstáculo financeiro quase intransponível para as classes de baixa renda. “Infelizmente se tornou muito caro ter uma casa. A habitação se tornou um produto de mercado extremamente caro. Para ter a sua casa precisa fazer um financiamento no banco, são empréstimos, altos juros e são prestações que a pessoa a vida inteira fica pagando,” pontua.
Para teóloga e coordenadora da Pastoral da Pessoa em Situação de Rua, Maria Aparecida do Rosário, a ausência de um teto é o estágio máximo da vulnerabilidade humana. Ela explica que a moradia é o pilar que sustenta outros direitos, como o acesso ao trabalho.

“Sem moradia não tem como, não habitando é mais difícil de conseguir um trabalho. A moradia é o lugar que você vai fazer seu descanso, seu voltar para casa,” afirma a, Maria Aparecida do Rosário.
Maria Aparecida do Rosário destaca que a campanha, iniciada na Quarta-feira de Cinzas, não se limita ao período da Quaresma, estendendo-se por todo o ano para gerar uma vigilância constante sobre as políticas habitacionais. A fundamentação teológica do lema reforça a importância da acolhida: “Esse Deus que vem morar no meio de nós fez morada no meio do povo e Ele, sendo morada, viu também a necessidade da moradia que o ser humano tem.”
A Campanha da Fraternidade prevê gestos concretos que vão além da reflexão teórica. No Domingo de Ramos, que em 2026 será celebrado no dia 29 de março, ocorrerá a Coleta Nacional da Fraternidade. Os recursos arrecadados são divididos estrategicamente: 60% permanecem na diocese para apoiar projetos locais de habitação e dignidade social, enquanto os outros 40% compõem um fundo nacional para políticas públicas em todo o país.
Embora a Igreja lidere essa mobilização, Dom Maurício Jardim recorda que a provisão de moradia é, primordialmente, uma obrigação constitucional. “Moradia é o primeiro dever do Estado. Conforme a Constituição, Artigo 6º, o Estado tem a missão de promover a moradia digna para a população. Mas o Estado sozinho não faz. Então a igreja, as instituições e as organizações, juntamente com o Estado, estão nessa perspectiva,” finaliza o bispo, convocando uma ação conjunta de toda a sociedade rondonopolitana.
Fonte: Da Redação



